20.1.09



Queime Depois de Ler - Irmãos Coen

Outro dia, zapiando os canais de televisão numa tarde, me deparei com uma apresentadora, destes programas de fofoca, comentando com outra, que havia assistido a este filme no dia anterior e tinha detestado, e que não tinha entendido que graça havia no filme. Logo em seguida passou a falar com conhecimento de causa à respeito das fofocas sobre as "celebridades" atuais, como as mulheres frutas e seus derivados. Certamente esta mesma apresentadora, não deve ler jornais nem assistir aos noticiários, assim como nosso digníssimo presidente da República, que só assiste tv para ver seu Corinthíans. Não sabe ela que este singelo filme feito pelos últimos premiados do Oscar, os irmãos Coen, talvez seja a comédia mais corrossiva à respeito da nação mais rica do mundo, burra e perdida pelas mãos de seu presidente cawboy. Este filme retrata a era Bush.

Último filme assistido no ano passado por mim, foi uma grata surpresa perceber um dos melhores filmes do ano, melhor até do que aquele que poucos meses atrás lhe renderam um Oscar merecido de filme e direção: "Onde os Fracos Não Têm Vez".

Não dá para não pensar em Bush, quando o ótimo J.K. Simmons aparece como um apalermado chefe da CIA, que parece mais perdido que seus oficiais subordinados. Quando recebe os informes à respeito dos problemas que cercam os outros personagens não menos patéticos e as mortes ocorridas. Suas reações, lembram Bush recebendo as notícias do 11 de setembro, no jardim de infância onde se encontrava, versando sobre patos com alunos com os quais ele deveria fazer parte. Em outro momento, Simmons dá ordens para seus subordinados, em que mais parece Bush mandando atacar o Iraque, pois o carrasco Saddan havia magoado e desrespeitado o papai Bush, e isso não se esqueçe, mesmo que pra isso tenha que se inventar bombas ameaçadoras, que não existiam e até agora, no seu último dia de mandato, não existem.Patético.

Mais patético ainda são os outros personagens que adentram numa cadeia de falsas informações a respeito de supostas confidencialidades da CIA, retiradas de um ex-agente afastado por "problemas com as bebidas". Todos são uns frustados solitários que se acham grande coisa e transformam coisas inúteis como as memórias da ex-agente bêbado, vivido por Malkovich, em bomba prestas a estourar na mão de cada um deles. Uma coisa pequena, que se torna grande devido à soberba de cada um dos envolvidos, como a personagem de Frances McDormand, que se achando possuídora junto com o amigo de trabalho Brad Pitt (excelente coadjuvante) de documentos importantes, resolve chantagear o ex-agente da Cia, para conseguir dinheiro para fazer suas tão sonhadas plásticas, afins de conseguir finalmente arrumar um namorado.

Não dá para deixar de fazer um paralelo destes personagens que "se acham" e na verdade só se complicam, com os "sábios" economistas americanos, que em meio às suas atrapalhadas genialidades deflagaram a maior crise economica mundial, só comparável aos anos de depressão a quase um século atrás. Hoje, um milhão (declarados) de americanos estão falídos, e outros países do mundo estão indo pro mesmo saco, como exemplo o Japão, onde brasileiros estão nas ruas sem emprego e sem dinheiro nem para a passagem de volta para o Brasil. Como as coisas tomaram estas proprorcões? Onde estavam os gênios economistas americanos com seus salários milionários que não pressumiram tamanha catrástofe? Soberba, é tudo soberba. Me parecem o personagem de Brad Pitt ( que merece o Oscar por este pequeno e bom trabalhado papel) se achando possuidor de grande coisa, quando na verdade não passava de um bobo da corte, um idiota patético.

Não contente com as críticas ao governo e a economia, os irmãos Coen ainda destilam seus venenos para as mulheres americanas nessa nova ordem mundial, que fez com que elas ganhassem - logo após a segunda guerra, mais precisamente nos anos sessenta - suas emancipações e conquistas feministas. Em meio à esposa (Elisabeth Marvel) e a amante (Tilda Swinton) se encontra um apalertado George Clooney, que não sabe se portar e mais parece um joguete em meio à duas mulheres de sucesso e poderosas, que quando se encontram, ambas chamam uma a outra de frias e egoístas, como de fato são. Parece que os irmãos Coen se perguntam: Pra quê tantas conquistas mulheres americanas? Para se tornarem isso? Frias e egoístas.

Engraçado que as críticas que chegaram a respeito deste filme, diziam que este seria um filme cômico e despretencioso dos irmãos, já que haviam acabado de realizar anteriormente uma obra-prima tensa e profunda. Não concordo, pois nem acho o filme engraçado, ao contrário, é triste, seus personagens são tristes e solitários. E o recado é que ou a América abre os olhos e enxerga que já não é mais a bam-bam-bam mundial, haja visto seu presidente e seus economistas, ou estão todos condenados à bobos da corte, patéticos ex-líderes afundados na suas próprias soberbas.

Já vai tarde Bush! Abre o olho Obama!

3.1.09


Um Homem Bom - Vicente Amorin


Sempre tive curiosidade sobre o período em que houve o golpe militar no Brasil, principalmente na sua fase mais dura após o AI-5. São incontáveis filmes que falam sobre esta época macabra da história brasileira, mas sempre pela ótica da esquerda, de quem sofreu torturas através dos militares. Lembro do primeiro filme que assisti sobre o assunto, se não me engano era "Pra Frente Brasil" em que Reginaldo Farias era confundido com um "terrorista" pelos milicos e era duramente torturado.Uma cena não me saí da cabeça que é quando Carlos Zara enfiava um cacetete "lá",no personagem de Reginaldo, que estava num pau de arara, e dizia que essa era a hora em que eles mais gostavam.Extremamente cruel. Este filme, assim como outros tantos como o recente "Batismo de Sangue", sempre pintaram os militares como loucos sádicos. Não duvido nem um pouco, pois existem provas concretas sobre a tal época absurda. O problema é que até hoje (se não estiver enganado) nunca vi ou li qualquer relato sobre alguém do lado de lá, isto é, algum militar, que resolveu relatar o que de fato acontecia, seja por arependimento, ou mesmo sadismo. Não é possível que todos concordassem, entre eles. Será que não havia algum militar que percebia que eles estavam passando do ponto? Que de repente se viu numa roubada, e pelos códigos de conduta praticados dentro da corporação, teve que se calar mesmo não concordando com as atitudes extremas? Seria muito interessante assistirmos algum filme que mostrasse o outro lado.

Digo isso tudo porque Vicente Amorim foi tratar de uma ferida desse tipo, mas não de caráter nacional, e sim mundial, pois o nazismo de certa forma, afetou não só os alemães, mas o mundo inteiro. O nazismo, com seu extermínio aos judeus, e sua procura pela pura raçã alemã, é talvez, a fase mais inacreditável da história mundial. Vendo os vários filmes a respeito dessa época, sempre me fiz a mesma pergunta quanto aos oficiais do exercito alemão. Será que não tinham pessoas lá dentro, que enxergassem a grande loucura que Hitler produzia? Será que eles utilizavam metodos de hipnoze, como às vezes me parece, quando vejo estes pastores picaretas na televisão? É tudo tão incrível.

Como uma bactéria, ou melhor, uma epidemia, o nazismo foi se alastrando na Alemanha e modificando a vida das pessoas. Este filme conta a história de dois amigos, sendo que um é professor universitário, vivido por Viggo Mortensen e o outro um psiquiatra rico e prestigiado, vivido por Isaacs. O personagem de Viggo vive uma pacata vida de professor em volta a uma mulher depressiva e uma mãe com demência, quando um livro seu sobre eutanásia caí nas mãos e nas graças de Hitler. Isso serve para sua mudança e escalada social na vida, enquando que com seu amigo judeu, ocorre exatamente o oposto, a descida aos infernos, pela perseguição que começa a sofrer e suas consequências. Quando o professor realmente caí em si, e percebe o que seu envolvimento com o partido nazista traz, e suas reais consequencias, percebe que é tarde demais para seu amigo e para si mesmo.

Gostei muito do primeiro filme de Amorim, lembro com carinho de Claudia Abreu cantando as músicas de Roberto Carlos, numa interpretação maravilhosa, assim como seu par no filme, Wagner Moura. No seu segundo filme, Amorim quis voar mais alto, e foi fazer um filme com produção e língua inglesa e com atores do porte de Viggo Mortensen e Jason Isaacs.E é neste dois atores fantásticos que o filme todo se equilibra, pois sabiamente Amorim dirige o filme com descrição e deixa os dois atores brilharem com interpretações perfeitas, pois na verdade, a história central do filme e sobre a amizade entre os dois tendo o nazismo como pano de fundo, ou melhor, como a bactéria que destruiu a Alemanha.Destruiu a amizade perfeita e a vida de dois bons homens.

19.12.08


Feliz Natal – Selton Mello


Mais uma vez recorro ao passado para falar sobre determinado assunto, acredito que é na infância que traçamos nossas diretrizes. Tanto é que assistindo a este filme, me lembrei de um natal em família, eu devia ter uns nove anos de idade, talvez menos.

Criança é cheia de vitalidade e esperanças, e naquele natal especificamente, eu estava todo prosa, estava enamorado – namorico de infância - da neta de uma vizinha e ela estaria lá para passarmos juntos a noite de natal. Me agradava ver tantos parentes e amigos juntos, além de poder ficar acordado até tarde, afinal era festa, era natal. Velhas rugas eram esquecidas, todos sorriam e se cumprimentavam felizes. Parentes que eu não via há tempos, apareciam com suas roupas novas, copos cheios nas mãos, enquanto o último Roberto Carlos tocava sem parar na vitrola, afinal desde que me conheço por gente, todo natal vem acompanhado de um novo disco do Rei.

Mas eis que minha alegria caiu por terra numa fração de segundos, pois conforme o alcool foi subindo para as cabeças das pessoas, os ressentimentos foram aflorando (mesmo criança eu podia sentir no ar) e em questão de segundos aconteceu uma cena digna de filme ruim. Lembro do perú (que eu ainda adoro) em cima da mesa, das frutas natalinas e uma faca – que era para cortar o perú - na mão de um parente. Muitos gritos, choros por causa de um acerto de contas motivado por ciumes e bebedeira, que quase dá em tragedia. Lembro de assistir a tudo, principalmente do perú em cima da mesa e da música do Roberto: “Por que me arrasto aos seus pés/ Por que dou tanto assim/ E porque não peço em troca/Nada de volta pra mim”. Patético, cena de dramalhão de quinta. Minha mãe me pegou pela mão e fomos embora antes da meia-noite, sem beijinho de namorada (que correu pra sua casa, enquanto eu morria de vergonha) e sem um pedacinho sequer do perú.

Desde então passei as noites de natal sempre receoso, achando até graça de certas cenas falsas, de como todo mundo se ama e se adora. Muita coisa jogada para debaixo do tapete, afinal é natal. Não que eu não ache que deva se trabalhar estes sentimentos de fraternidade, mas tem vezes que chega a ser ridículo, e pior, doído. Muitos dirão: qual é a família que não tem defeitos? Sim, mas umas têm mais defeitos que as outras, isso é certo.

E é sobre uma dessas famílias que Selton Mello resolveu falar no seu primeiro filme. Assunto espinhoso, difícil. Apesar de abusar dos closes, Selton acerta a mão ao mostrar uma família despedaçada, árida e cheia de mágoas. Todos estão falidos emocionalmente, e a chegada de um irmão vivido pelo ótimo Medeiros, literalmente surgido de um ferro velho, faz as ferrugens se mostrarem. Como bom ator que é, consegue extrair de todos seus atores interpretações perfeitas, doídas, pulsantes. Se o abuso de closes às vezes chega a incomodar, dá para se notar com o passar do filme, que eles são propositais, pois o diretor quer pegar os personagens em suas epidermes, seus suores, seus cheiros e incomodar o espectador. Algumas cenas são impressionantes, como a mãe falando sobre o verdadeiro valor do natal enquanto todos se servem de arroz na mesa farta. Ou mesmo o momento em que os dois irmãos ficam a se olhar no bar sem dizer uma palavra sequer e ao mesmo tempo dizendo tanta coisa, tantas mágoas, tantos ressentimentos. Mello foi muito feliz em trazer de volta à cena Paulo Guarnieri como o irmão que (aparentemente) deu certo, e por isso leva a família e os problemas nas costas.

Um filme difícil de degustar, com claras referencias (ao meu ver) de “O Pântano” de Lucrécia Borges. Mas muito corajoso na sua ousadia de se fazer um filme de estréia triste, deprimido, mas verdadeiro. Que venham outros filmes deste novo e ótimo diretor.

1.11.08


Os Desafinados – Walter Lima Jr.


Desafinado, ou melhor, desatualizado, com os recentes acontecimentos - como a Mostra, e mesmo o cinema de uma maneira geral - pois fiquei algumas semanas meio que fora do ar, acabei assistindo a este filme apenas recentemente, na raspa do tacho, nos cinemas. Apesar da minha saudade pela tela grande e a pré-disposição para acentuar os pontos positivos de uma produção nacional, inclusive pelo tema que muito me agrada, o resultado acabou me decepcionando.

Recentemente, embalado pelas comemorações de aniversário da Bossa Nova, reli “Chega de Saudade” de Ruy Castro e em seguida li a maravilhosa biografia sobre Tom Jobim, escrita por Sérgio Cabral (o pai, não o governador) e em ambos, o que se ressalta é o quanto aquela turma liderada pelo super Jobim e seus não menos super-músicos-poetas, fizeram pela música, de forma positiva e mundial. Gostando ou não, eles foram muito bem sucedidos. Decantaram o Rio de Janeiro dos anos dourados, do presidente Bossa Nova, da primeira conquista mundial e em seguida a segunda Copa, quando o Brasil realmente parecia o país do futuro. Em ambos os livros se conta a história real de pessoas que foram muito bem sucedidas naquilo que se propuseram, parece até que foi tudo um mar de rosas. Mas não foi bem assim.

Realmente, foi uma grande idéia do diretor do belo e poético “A Ostra e o Vento”, a de contar a história de alguns músicos que não conseguiram trilhar o sucesso que Jobim e outros trilharam, tanto aqui quanto fora do Brasil. Inclusive, personagens como o de Rodrigo Santoro são baseados em fatos verídicos, por mais incrível que pareça. Tinha tudo para se tornar um filme histórico, mas saiu... Desafinado.

Vale ressaltar várias coisas que saíram corretas, como a personagem de Cláudia Abreu e seu banho na banheira (desculpe Pedro Cardoso) e sua sintonia com Santoro. O cineasta que no passado era um engajado socialista vivido por Selton Mello, que nos dias atuais virou um diretor publicitário capitalista. As belas canções do próprio diretor com Jair Oliveira, ou mesmo a comovente interpretação de Alessandra Negrini para “Caminhos Cruzados”, canção que sempre me emociona. Mesmo as cenas em Nova York, no parque, são muito bonitas, mas...

Ao contrário do poético e musical (sim, as cenas se interligam como uma sinfonia) “A Ostra e o Vento”, e porque não mencionar “ O Monge e a Filha do Carrasco”, aqui as cenas não se encaixam (logo um filme tão musical), tem horas que o filme se perde em sua montagem, e algumas cenas com os músicos, nos dias atuais, são realmente constrangedoras e desnecessárias, como a patética cena final, do filho desconhecido que volta. Como pode um diretor tarimbado e talentoso como Walter Lima permitir uma macacada como aquela dublagem entre Selton Mello (cineasta jovem) e Arthur Kohl (cineasta velho)? Ah, insensatez! Não faz sentido algum, e acaba atrapalhando e muito uma obra que deveria ser ímpar.

Mesmo querendo gostar, o resultado final acabou ficando aquém do esperado. Que pena. Mas de qualquer forma, viva a Bossa Nova e seus músicos, com sucesso ou não.

9.10.08



Linha de Passe – Walter Salles e Daniela Thomas

Caminhar, seguir em frente.Mesmo que tudo dê errado, que a desesperança tome conta de todos os nervos e vontades.

Caminhar, seguir em frente.Mesmo se o "todo poderoso timão”estiver descendo para a segundona , jogar contra o Havaí ou outro timinho qualquer.Mesmo que a barriga esteja imensa de outra cria sem pai, de outra pia entupida. Caminhar.

Caminhar, atrás de uma fé pura, ou mesmo uma religião qualquer que traga alento, para aplacar a dor, do monstro invisível. Da falta de oportunidade, de um emprego mixo, do não saber pra onde ou por quê.

Caminhar, pilotar, entre poluída metrópole cheia de gente, cheia de carros e motos, passar invisível pelos bairros chiques, pelos homens engravatados, na correria de ser mais um entre tantos a trabalhar tanto por tão pouco. E se segurar (ou não) para não adentrar no mundo da contravenção, do crime.

Caminhar, dia e noite a procura de um ser paternal, pelos ônibus e pelas caras estranhas e pouco amigáveis, afins de (talvez) encontrar um pouco de conforto no meio de tanto desconforto material e espiritual.

Caminhar e lutar pelo sonho de ser alguém especial, acreditar no talento que tem, ser um jogador, mesmo que todos digam, que igual tem pra mais de cem e mesmo assim não desistir.

Retrato de tantos espalhados pela terceira metrópole do mundo: São Paulo. Sua periferia imensa, feia e cinzenta, que fica muito longe das Vilas Madalenas, das Paulistas e Augustas, trás consigo a marca de guerreiros invisíveis que não aparecem nas novelas, na TV. A não ser quando seja para mostrar algum crime, ou jogador de futebol que deu certo, que venceu, como Cafu na copa gritando Jardim Irene.

A luta de uma família moradora do bairro da Cidade Líder, entre uma mãe e seus quatro filhos homens (e outro na barriga). A esperança de um deles de se tornar um jogador de futebol e assim ajudar a todos a sair da pobre vida de necessidades. A difícil “linha de passe” entre um e outro para sobreviverem no mundo, na periferia e entre eles mesmos.

Walter Salles e Daniela Thomas voltam a parceria, e tão bem nascidos e criados por Salles, Santiagos e Ziraldos, mostram uma veia poética e artística cada vez melhor. A linha de passe entre ambos, é novamente capaz de trazer aos cinéfilos mais uma obra excepcional, e principalmente original. Os diretores, nesta terceira parceria, conseguem enxergar e mostrar com rara sensibilidade o cotidiano desses personagens. Não os faz como sofredores e coitados, e sim como seres fortes, que na areia movediça da vida, procuram sobreviver. Apesar de tudo, apesar de todos, apesar do céu carregado e cinzendo. Caminhar, continuar.

22.9.08

Ensaio sobre a Cegueira – Fernando Meirelles


Acho que está correta a atitude de Meirelles em não ler as críticas a respeito do seu último filme. Afinal, deve ser duro adaptar um livro ganhador de Nobel e classificado por muitos – inclusive o próprio Zaramago - como uma adaptação impossível. Eu mesmo já li tantas críticas bestas, que deveria não ter lido, ao mesmo tempo em que é legal ver opiniões tão divergentes. Uns dizem que ele deveria ter sido mais fiel ao livro, outros que deveria ter tido mais liberdade. As opiniões se divergem entre quem gostou ou não do livro, e até entre aqueles que nem chegaram a ler a obra do português.

Achei o filme ótimo, mas com algumas ressalvas. Eu sou da turma que acha que ele deveria ter sido fiel o máximo possível ao livro, pois considero o mesmo uma obra-prima, talvez o melhor livro que li na última década, juntamente com “Ratos e Homens” que também tem uma adaptação para o cinema, feita por Gary Sinise bem meia boca.

Tenho guardado na memória cada detalhe importante do livro, e a impressão que tenho é de que Meirelles preferiu “pegar leve” em algumas partes, afins de não machucar a sensibilidade do gosto médio americano, pois é de lá que depende a maior parte da bilheteria e conseqüentemente o sucesso do filme. Aqueles curtidores de “Senhor dos Anéis” certamente se chocariam com a sujeita fétida que o livro exala em suas paginas, assim como a cena do estupro grupal em meio a fezes e urinas. A fotografia branca e leitosa tratou de esconder a sujeira, o que para mim é uma pena. Mas esteticamente ficou muito bonito, isso é inegável. Também, Meirelles preferiu não mexer no vespeiro da religião, ponto forte e freqüente da obra do ateu Zaramago. No livro, uma das coisas mais fortes, é quando a mulher que enxerga entra numa igreja e vê todos os santos com os olhos encobertos e comenta o que vê, os fiéis que estão na igreja escutam, e ela é quase linchada por isso. Uma clara crítica à crença religiosa do autor do livro, que Meirelles preferiu ocultar no filme. O diretor também decidiu retirar do roteiro a “velha que comia carne crua”, personagem interessante, que deve ter ficado de fora por falta de espaço.

Mas o engraçado numa adaptação de um livro que eu já li, a leitura que o diretor faz de algumas passagens, diferente da minha percepção, como na cena em que o médico faz amor com a moça dos óculos escuros. Na minha percepção de leitor, aquilo tinha sido muito amoroso e carinhoso, inclusive com os olhares desejosos e cúmplices da mulher que enxergava, que se sentia excluída justamente por ter o poder de enxergar. Era a carência dos iguais na cegueira branca, contra a carência daquela solitária mulher que tinha que enxergar aquela sujeita toda. Já no filme ficou mais carnal e rápido. No mais, o filme me passou uma sensação de frieza incrível, é como se todas aquelas cenas se passassem num lugar em que houvesse neve e muito frio.

É pena que o “cão das lágrimas” não teve uma adaptação à altura de sua importância no livro, pois ele é tão importante quando a “Baleia” de “Vidas Secas”. Mas no final o resultado ficou ótimo, com atores muito bem dirigidos, como já é de praxe nos filmes de Meirelles e a certeza que o mesmo definitivamente entrou para a galeria dos grandes diretores mundiais da atualidade, o que não é pouca coisa.

18.9.08


Mistério do Samba – Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor

“Sentimentos em meu peito eu tenho demais”

Sentimentos adormecidos afloram já bem no começo deste singelo e genial filme, é quando a câmera percorre janelas e mobílias antigas em Osvaldo Cruz, bairro da Portela, ao som de um entre tantos belos sambas, as lágrimas já começam a rolar nos olhos. O cinema está cheio – que bom – e eu tento disfarçar. Mas não por muito tempo.

Saudade de tempos idos é o que move este documentário que procura retratar o que é, e também o que representa a Velha Guarda da Portela para o samba e para o Brasil, que sem memória, não sabe cuidar de seus tesouros. Eu de minha parte, assisto ao filme comovido, com o coração apertado com saudades do que não vivi, com saudades das belezas que sei que existem, mas não pude vivenciar na minha pobre vida. Afinal de contas, quanta riqueza e poesia na alma daquela gente pobre e sem instrução, provando que cultura não tem nada haver com sabedoria. O que move a vida daqueles velhos acadêmicos do samba é a paixão pela amizade de tempos, a roda de sonho e samba tradicionalmente feito apesar do tempo e velhice no corpo, mas não na alma. Uma cena entre tantas do filme ilustra bem este sentimento que é quando a Velha Guarda toca em um botequim e uma senhora passa em frente ao bar com suas compras do mercado, ela pára, larga a sacola no chão e dança miudinho lindamente, vira moça jovem e sorridente, depois pega sua sacola e segue seus afazeres, só que bem mais leve.

Para isso tudo acontecer, foi preciso um trabalho demorado e delicado por parte da portelense e também produtora do filme, Marisa Monte, que como uma verdadeira Indiana Jones do samba, foi atrás de relíquias e baús escondidos de sambistas já mortos que nunca tiveram a atenção devida. Sua empreitada se fez por ela achar que – como ela mesma diz no filme- indo atrás daqueles sambas antigos o mundo ficaria mais bonito. Pois é, já não bastava ser a melhor cantora do Brasil, também é a caçadora e arqueóloga do samba.

O clima de melancolia envolve o filme o tempo todo. Um bom exemplo é quando “As Pastoras” junto com Marisa cantam, com a cidade do Rio de Janeiro ao fundo: “Mais hoje em dia eu não tenho mais/ A alegria dos tempos atrás...” As vozes vão diminuindo, as lembranças aflorando. Saudades da mocidade, saudades da época em que o carnaval era só coração, e não uma indústria de bicheiros. Na platéia, eu e outras pessoas, já não nos preocupamos em disfarçar o choro, interessante perceber uma moça jovem e bela próxima a mim chorando bastante, provando que o tempo pode até passar, mas os sentimentos podem ser sempre atuais e juntam almas afins.

Mas a momentos engraçados também, quando o filme retrata a velhice gaiata de Seu Argemiro, que segundo Zeca Pagodinho era o velho mais safado da Portela. Ou mesmo Jair do Cavaquinho, que graças à Marisa Monte gravou seu único disco e veio a falecer, assim como Seu Argemiro, logo após o término das filmagens.

Marisa, Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho são coadjuvantes de luxo neste filme, em que as estrelas são estes velhos sambistas da Portela. Que mesmo escondidos ou mesmo esquecidos em Osvaldo Cruz fazem e fizeram deste mundo um lugar melhor através do samba.

Que o Brasil faça por merecê-los.

25.8.08


Recentemente, a liga dos blogues (da qual faço parte), fez a escolha dos melhores filmes lançados nos cinemas do Brasil, no primeiro semestre de 2008. Por absoluta incompetência minha, acabei perdendo a data limite para envio dos meus indicados. De qualquer forma, seleciono abaixo todos os filmes que assisti no primeiro semestre deste ano, não só no cinema, mas em DVD também. Lesado que sou, acabei perdendo filmes imperdíveis como “Serras da Desordem”, “I Not Here”, “Apenas Uma Vez”, entre outros. Como no ano passado, que acabei perdendo “Maria” de Abel Ferrara – obra-prima- que só recentemente assisti em DVD neste ano. Incluo as minisséries na lista, pois acredito ser o que de melhor Hollywood têm produzido ultimamente, haja vista a quantidade de filmes ruins feitos para o cinema. Alias, acho este semestre bem fraquinho, se for compará-lo há anos anteriores. Não que não haja ótimos filmes (“Sangue Negro”, “A Espiã”, “Onde os Fracos Não Tem Vez”, etc), talvez chatice minha, mas poucos filmes me tocaram e entraram para aquele seleto grupo de filmes especiais, aqueles que temos vontade de ter na videoteca, honra seja feita ao frescor de “Juno” e “Um Beijo Roubado”, primeiro filme americano de Wong Kar-Way. Acho que os bons roteiristas migraram para as minisséries, e os europeus – principalmente Itália e França – vivem de nostalgia, de tempos idos. Espero que o segundo semestre seja melhor, e curioso, aguardo a adaptação de “Ensaio Sobre a Cegueira” – um dos melhores livros do mundo - de Meirelles e o novo de Walter Salles, para quem sabe, salvarem o ano.

Abaixo, segue a lista por ordem de preferência, que certamente irá mudar até o fim do ano:


1 – LOST – 4º temporada – DVD - * * * * *
2 – MARIA – Abel Ferrara – DVD - * * * * *
3 – Juno – Jason Reitman * * * * *
4 – Um Beijo Roubado – Wong Kar-Way * * * * *
5 – Os Chefões – Abel Ferrara (DVD) * * * *
6 – Medo da Verdade – Ben Affleck (DVD) * * * *
7 – Sangue Negro – Paul Thomas Anderson * * * *
8 – O Banheiro do Papa – César Charlone e Enrique Fernandez * * * *
9 – A Espiã – Paul Verhoeven * * * *
10 – Onde Os Fracos Não Tem Vez – Irmãos Coen * * * *
11 – Falsa Loura – Carlos Reichenback * * * *
12 – Desperate Houseways – 3º temporada (DVD) * * * *
13 – Greys Anatomy – 2º temporada (DVD) * * * *
14 – Greys Anatomy – 1º temporada (DVD) * * * *
15 – Roma – 1º temporada (DVD) * * * *
16 – House – 1º temporada (DVD) * * * *
17 – Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto – Sidney Lumet * * * *
18 – Na Natureza Selvagem – Sean Penn * * * *
19 – Onde Andará Dulce Veiga ? – Guilherme de Almeida Prado * * * *
20- Fim dos Tempos – M. Night Shyamalan * * * *
21 – Entre o Céu e o Inferno – Craig Brewer (DVD) * * * *
22 – A Família Savage – Tamara Jenkins * * * *
23 – Senhores do Crime – David Cronenberg * * * *
24 – Os Indomáveis – James Mangold * * * *
25 – Shine a Light - Martin Scorsese * * *
26 – O Gângster – Ridley Scott * * *
27 – Depois do Casamento – Susanne Bier (DVD) * * *
28 – Estômago – Marcos Jorge * * *
29 – Chega de Saudade – Laís Bodanzky * * *
30 – Coisas Que Perdemos Pelo Caminho – Susanne Bier * * *
31 – Sweeney Todd – Tim Burton * * *
32 – Paranoid Park – Gus Van Sant * * *
33 – Desejo e Reparação – Joe Wright * * *
34 – Ao Lado da Pianista – Denis Dercourt * * *
35 – Heroes – 2º temporada (DVD) * * *
36 – Jogos do Poder – Mike Nichols * * *
37 – O Sonho de Cassandra – Wood Allen * * *
38 – À Procura de Vingança – David Von Ancken * * *
39 – Dois Dias em Paris – Julie Delpy * * *
40 – Atos Que Desafiam a Morte – Gillian Armstrong (DVD) * * *
41 – Antes de Partir – Rob Reiner * * *
42 – Bella – Alesandro Gómes Monteverde * * *
43 – Vestida Para Casar – Aline Brosh MacKenna * *
44 – Corpo – Rossana Foglia * *
45 – Homem de Ferro – Jan Favreu * *
46 – Irina Palm – Sam Garbarski * * *
47 – Polaróides Urbanas – Miguel Falabella * *
48 – Banquete do Amor – Robert Benton * *
49 – Agente 86 – Peter Segal * *
50 – O Diário de Uma Babá – Shari Springer Berman (DVD) * *
51 – Speed Racer – Andy e Larry Wachowski * *
52 – O Suspeito – Gavin Hood * *
53 – Eu Sou a Lenda – Francis Lawrence * *
54 – O Som do Coração – Kirsten Sheridan (DVD) * *
55 – Ponto de Vista – Pete Travis (DVD) * *
56 – Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal – Steven Spielberg * *
57 – P. S. Eu Te Amo – Richard La Gravenese *
58 – Um Sonho Dentro do Sonho – Anthony Hopkings (DVD) *
59 – O Caçador de Pipas – Marc Foster *
60 – Meu Nome Não é Johnny – Mauro Lima *
61 – Em Pé de Guerra – Craig Gillespie *
62 – Jogos de Amor em Las Vegas – Tom Vaughan *
63 – Loucas Por Amor, Viciadas Por Dinheiro – Callie Khouri *
64 - Sex And City O Filme – Michael Patrick *
65 – Sexo Com Amor? – Wolf Maya

12.8.08


Batman - O Cavaleiro das Trevas - Christopher Nolan



Só agora pude conferir este tão falado filme. Passado um mês desde a estréia, parece que a pueira baixou um pouco, e tentei assistí-lo não apenas pelo interesse no personagem de Heath Ledger, mas com real interesse num todo. Sempre assisto estas super-produções com um pé atras, além de ter achado o filme anterior muito chato, principalmente na recente revisão, para poder assistir a este melhor.Super-Herói pra mim é quem tem de enfrentar ônibus e trens lotados todos os dias, e na hora do almoço a marmita com zoião, mas isso é outra história...

Acontece que não pude evitar a especial atenção ao Coringa de Ledger. Este era (e foi) seu passaporte definitivo ao grande time de estrelas do cinema. Mas o ator já chamava a atenção há tempos. Lembro dele em "O Patriota" fazendo o filho de Mel Gibson, com seus dentes azuis, antes da morte; Seu suicídio, após declarar o amor ao pai em "A Última Ceia";O irmão mentor da dupla, o mais tímido, que talvez por isso chamasse mais atenção em " Os Irmãos Grimm"; e principalmente seu Ennie Del Mar em "O Segredo de BrokeBack Mountain", naquela cena final antológica quando abraça a blusa do amado morto.Ele era talentoso, o próximo grande astro de uma Hollywood em decadência, pena que não deu tempo.

Este filme talvez seja o que mais gostei de todos, mas só o tempo dirá se está impressão está correta.Até porque não achei os outros lá grande coisa, sempre é muito barulho por pouco.Mas quem diria que alguém iria fazer um Coringa melhor do que Jack Nicholson? Com o tempo, seu personagem ficou caricato, e com a versão arrebatadora (será um Oscar póstumo) de Ledger - só a voz que ele faz já mereceria um prêmio -, a confirmação desta minha impressão.Mesmo o "Duas Caras" de Aaron Eckhart, é bem melhor do que o mesmo personagem interpretado por Tommy Lee Jones, que mais parecia um personagem de desenho animado.Alias, os Batmans dirigidos por Joel Schumacher parecem desenhos ruins, mesmo com atores do nível de Jones, que tentaram fazer o que pudiam, com alguns milhões no bolso, é claro.

Na verdade, acho que o que mais gostei neste novo filme, é o fato de o Batman ser (para mim) um mero coadjuvante perante os outros personagens. Até seu mordomo Alfred (Michael Caine) é mais interessante. A gente acaba torcendo para os vilões.Aquele drama de pobre menino bilionário solitário cansa, e a canastrice de Christian Bale só faz piorar a coisa.

Quanto a história, achei meio confusa, não ficando claro para mim, a real motivação de cada um dos personagens, principalmente a tranformação do juíz Harvey Dent em "Duas Caras". E Coringa só quer a tal anarquia (palavra sempre mal empregada/interpretada), mas o que ele de fato quer dizer com está palavra? Quais são realmente suas motivações para o caos que ele quer instalar em Gothan City? Ficará para o próximo caça níquel?

No mais, já vale por minha cena preferida, aquela em que o Coringa visita o juíz no hospital travestido de enfermeira. Não sei porque aquela cena me lembrou "Psicose" de Hitchcock.Seria uma homegagem?

Com a fama de maldito que o filme anda carregando, devido a morte de Ledger, acidente de Freeman e prisão de Bale, ele está indo muito bem nas bilheterias mundo afora. Ninguém dúvida que haverá continuação. Mas quem fará o Coringa? Sua risada mortal ecoa no ar.

3.8.08


Medo da Verdade – Ben Affleck

Estranho este Ben Affleck. Começou muito bem, ganhando Oscar de roteiro e tudo por Gênio Indomável, e atuando em bons filmes como Procurando Amy. Mas com isso veio a fama repentina, romances com estrelas todos os dias nos noticiários de fofocas, e os milhões de dólares ganhos em super produções, atiçaram sua ganância e ele encheu os bolsos, mas só fez filmes terríveis com atuações medíocres. Ninguém mais levou o rapaz a sério. Talvez por isso, sua estréia na direção de uma produção tenha passado desapercebida pela grande maioria das pessoas, e nem sequer passou nos cinemas, indo direto para as locadoras. Triste engano, e infelizmente tive de assisti-lo diretamente em DVD, mas ele merecia ser conferido na tela grande, pois é um excelente filme, e certamente entra na minha lista de melhores do ano.

Na sua primeira direção, Affleck dirige com muita segurança, como se já fosse um veterano, e filmando no subúrbio de Boston, sua cidade natal, chamou seu irmão Cassey para protagonizar o filme e adentrar naquelas vielas que eles juntos conhecem tão bem, como fica demonstrado logo no início do filme. O que se segue é uma história forte, tensa, cheia de nuances, onde crimes, assassinados, desaparecimento de crianças e pedofilia dão o tom deste filme baseado no romance de Dennis Lehane, o mesmo autor de “Sobre Meninos e Lobos”. Ouso dizer que este filme talvez seja até melhor que a adaptação do velho e bom Clint.

O personagem de Cassey Affleck é uma espécie de ”detetive” das pessoas que não se dão muito bem com a polícia, aquele tipo de cara que transita entre todos os tipos sem fazer julgamento, e acaba sendo contratado para achar uma criança desaparecida, filha de uma viciada em drogas vivida por Amy Ryan (indicada ao Oscar deste ano pela sua atuação marcante). Nesta sua busca pela menina desaparecida, acaba se deparando com problemas muito maiores, como pedófilos, traficantes e policiais corruptos. O buraco acaba sendo cada vez mais embaixo. E surpreendentemente, quando ele consegue solucionar o problema, se depara com um embate moral absurdo, em que suas escolhas o levam a tomar decisões que lhe trazem prejuízos imensos em sua vida pessoal. Qual a atitude certa a tomar, quando a atitude correta leva fatalmente ao erro, e o erro pode levar ao certo? Qual o rumo certo a tomar? No final do filme, o embate do personagem leva ao espectador o mesmo embate, e nos bota para pensar.

Assim, Bem Affleck demonstra grande talento na direção, e um futuro promissor. Talvez até dê para esquecer seus outros filmes como ator, pois nasce um grande diretor.

15.7.08

Chega de Saudade – Laís Bodanzky


Não é carnaval, mas é como se fosse. Pessoas, - especialmente senhores e senhoras de idade avançada - todos vestidos de felicidade, a bailar pelo salão com seus vestidos horríveis-lindos, suas camisas de seda, que deixam a dor em casa esperando, para se fartarem à procura de um tempo remoto, um tempo esquecido de sonhos e saudades pelo que houvera há tempos, nem que seja apenas numa lembrança apenas imaginária. As músicas e o modo como dançam pelo salão levam eles ao passado, e principalmente a uma vida mais feliz. Eles se tornam gigantes. Apenas algumas horas em apenas um dia da semana, eles voltam a juventude, e principalmente, voltam a felicidade.

Sei disso, pois estive em alguns desses salões que povoam o bairro da Lapa, aqui em São Paulo. Principalmente este “União Fraterna” onde aconteceram as filmagens. Depois de uma perda grande em família, resolvi acompanhar minha mãe num desses bailes para alegra-la, pois desde menino – ela sempre foi velha, dessas que curtem Nelson Gonçalves e afins - já a acompanhava. Agora, já adulto, o que mais me impressionou, nestas andanças por alguns desses salões, foi ficar verificando as pessoas no meio do salão, dançando. É bonito de se ver, tanta vida e intensidade em cada passo elegante, em cada rodopio pelo salão. É certo que o nível musical decaiu muito, pois os antigos boleros, muitas vezes são substituídos pelas terríveis bregas sertanejos, mas mesmo assim (relevando), é bonito de ver aquele monte de rosto sofrido se transformar em suor e sorriso, todos rejuvenescem, e voltam para casa leves, com certeza.

Acredito que Bodansky deve ter percebido este fato incrível, e sabidamente partiu para seu segundo longa, tentando contar um pouco dessa gente, seus tipos, seus modos. E consegue retratar bem este universo, através de seus inúmeros personagens que aparecem na trama. Muitos deles eu mesmo conheci idênticos nestas minhas andanças pelos bailes, como o senhor assanhado que vive a se gracejar para as mais novas. As senhorinhas que ficam doidas para dançar e não conseguem um par. O homem que quer dançar, mas também não consegue, pois está “queimado” pelo suor temperado em álcool. O que tem mais, são os casados, que se passam por solteiros, conversei com um que falou que estava aposentado, depois de trabalhar desde os dez anos de idade, e agora a “senhora” ficava em casa cuidando dos netos, enquanto ele bailava pelo salão, e com sorriso franco, dizia agora estar curtindo sua juventude. Talvez, o único personagem que não vi no filme e que vi pelos salões, seja o tal “Dom Juan” de senhoras abastadas ou quase, é aquele tipo de uns trinta e cinco anos, boa aparência, geralmente nordestino, que vai aos bailes para curar a carência dessas senhoras, em troca de (com sorte) boa vida.

Mas o resultado é excelente, no retrato dos tipos que freqüentam tais lugares. Pena que na tela, a junção de tantos personagens, através de um roteiro pouco inspirado, resultou num retrato distante, às vezes frio até. Poderia ser melhor, mas já vale, e muito, pelo carinho com estes seres maravilhosos, e vivos, muito vivos, que vivem na tal “melhor idade”.

26.6.08


Fim dos Tempos – M. Night Shyamalam


Noite fria em São Paulo. Caminho pela Av. Paulista, todos estão com muito frio, encobertos de blusas e solidão, caminham rapidamente, muita gente bonita. Entro no cinema para assistir a nova aventura criativa de Shyamalan, desta vez sem a expectativa que havia imposto para o último do Spielberg do qual saí decepcionado. Lembro que toda a vez que Wood Allen estréia um novo filme, um crítico qualquer sempre (mesmo, reparem na Folha por exemplo) declara que “ um Allen mediano é melhor que a maioria das coisas em cartaz”.Como não tenho gostado muito dos últimos filmes de Allen, acho o mesmo, mas para a obra - ainda pequena- de Shyamalan.

É impressionante como a capital do cinema americano tem sido idiota com o cineasta. Alçado aos céus por seus dois primeiros filmes, já o mandaram aos infernos pelo fracasso de bilheteria da fábula maravilhosa “A Dama da Água”.Parece que estão fazendo o mesmo com este seu último filme. Acho que eles se acostumaram às franquias, adaptações e continuações de filmes, e se esqueceram de glorificar cineastas originais, idéias originais, como se isto sim, fosse uma aberração. Criatividade é palavrão em Hollywood. Não é à toa que o melhor que se assiste hoje em dia são as séries televisivas - quem dúvida, tente acompanhar algumas delas e veja se consegue se desgrudar da tela - tanto é que muitos atores se voltam para as mesmas, já que não encontram (incrível) roteiros empolgantes, enquanto na TV acontecem maravilhas como LOST, Prison Break, À Sete Palmos, House, etc. Lamentável.

Shyamalan se arrisca, não tem medo do novo e da eventual derrota nas bilheterias. Talvez os mesmos que hoje o critiquem, num futuro não muito distante iram considerá-lo genial. A verdade é que diante da mediocridade artística em Hollywood, ele realmente se destaca, e isso evidentemente incomoda. Alguns executivos da meca do cinema devem pensar: “ O que este indiano pensa que é?” Senhores, este será ( ou já é?) um dos cinco cineastas do mundo.

Acho que com exceção de “ O Sexto Sentido” , todos os outros filmes de Shyamalan são de lenta digestão. O último não é exceção. Saí do cinema confuso, sem saber qual o seu sabor. Acho que estranhei seu evidente pessimismo, mas este mesmo pessimismo não esta perene em seus outros filmes? Passados três dias, ele foi se tornando imenso, e com certeza, a exemplo dos outros filmes, irei degustá-lo melhor na segunda vez.

Me pareceu no primeiro momento – que me desagrada – que o cineasta queria passar um alerta ambiental, uma prestação de contas. A natureza cobrando o estrago causado pelo homem. Sim, mas não é só isso.

Velhos questionamentos de Shyamalan estão lá presentes, como a xenofobia americana sob forma de terrorismo; a violência armamentista – o assassinato dos dois garotos é incrível - a perda de valores antigos como a união familiar – o suposto adultério em nome do tédio e da falta de diálogo logo no início – a sociedade globalizada, rápida e consumista em que, quem não se enquadra rapidamente se exclui – como a mulher enlouquecida na casa isolada. De tanto procurarmos fazer parte desta tal globalizarão tecnológica e extremamente urbana, perdemos nosso próprio universo interno, e viramos zumbis de nós mesmos, como na cena chocante em que um homem, totalmente alheio e abobalhado, oferece seus braços para os tigres, que se fartão. Na época do Império Romana, lá na arena, pelo menos,ainda se lutava pela vida, agora temos a tv à cabo e as cercas de segurança. O cineasta parece querer mostrar que estamos matando a natureza e nos matando individualmente. Pode ser.

No final do filme, volto a caminhar pela fria Av. Paulista, olho para as pessoas em volta e penso em quantas delas caminham como as pessoas do filme que antes de se suicidarem virão zumbis. Quantas não estariam naquele exato momento pulando dos edifícios suntuosos dali como verdadeiros mortos-vivo. Eu, ali também. Como um morto-vivo direto de um filme de Romero.
Goste-se ou não, Shyamalan faz mais um filme criativo e atípico, cheio de imagens fortes. Talvez o ponto negativo do filme esteja na escalação de Mark Wahberg e Zooey Deschanel como os protagonistas, que não me convencem. Mas é mais um detalhe perante tão grande – e injustiçado – cineasta.

Minhas notinhas para a pquena e grande obra do diretor:

A Vila * * * * *
Sexto Sentido * * * * *
Corpo Fechado * * * * *
A Dama da Água * * * * *
Fim dos Tempos * * * *
Sinais * * * *

18.6.08



Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal – Steven Spielberg

E lá vou eu, novamente lembrar de tempos idos, tempos de esperanças. Como não lembrar que “Caçadores da Arca Perdida” foi o primeiro filme que assisti em VHS na minha vida,- junto com Duna do Lynch, que não foi tão legal- eu e outros amigos na casa do primeiro que conseguiu comprar o caríssimo (na época) vídeo-cassete. Dá para imaginar a emoção que foi isso? Mas o melhor foi mesmo a segunda aventura: Indiana Jones e o Templo da Perdição. Ah! Esse foi demais! Alguns garotos malucos da minha escola não paravam de falar neste filme e quando fui assistir, lembro de acha-lo o melhor filme da minha vida. Virou mania e uns quatro sábados seguidos fomos em turma assistir ao filme no velho e saudoso “Comodoro” na avenida São João. Era o melhor cinema de São Paulo na época, a maior tela e melhor som, fora o fato que era o único cinema em que o filme começava direto, sem aqueles jornais da época. Era um acontecimento, cheio de emoção à cada semana. Eu tinha a impressão que entrava no meio da ação junto com “Indy”, era tudo muito vivo e empolgante. Indiana povoa o meu imaginário de pré-adolescente, garoto cheio de energia, pronto para se aventurar na vida. Lembro que queria porque queria ter um chapéu igual ao meu herói predileto, acabei não tendo. Será que aí é que está o erro? Antes de assistir ao novo “Indy”, revi os outros três filmes da série, e mesmo- evidentemente- não sentindo a mesma emoção de outrora, curti muito todos.
Mas e o novo filme? Tão cheio de mistérios e que demorou tanto a ser feito. Será que ele acenderia em mim, aquela chama propagada pelos meus filmes preferidos de pré-adolescente? Será?

Infelizmente o quarto filme da série foi uma decepção sem tamanho. Achei tudo tacanho e sem graça. Roteiro besta, vilões datados e efeitos especiais importados diretamente do Paraguai – com todo o respeito aos vizinhos - como a cena daquelas formigas horrorosas. Ora, por favor!Tanto mistério e dinheiro gasto para historinha tão chulé! A cena em que Indy descobre que tem um filho é tão rápida e emocionante quanto o gosto de um chuchu. Tudo bem que o filme se propõe a ser apenas um entretenimento, mas poderiam ter caprichado (bem mais) no roteiro, tudo parece tão raso, que até o fato de a história se passar na época da guerra fria soa datado. Harrison Ford faz o que pode, juntamente com o restante do elenco, mas a preguiçosa direção de Spielberg põe tudo a perder. Após cinco minutos fora da sala de cinema, nem lembrava do filme que havia acabado de assistir. É realmente muito pouco para a continuação que eu mais aguardava assistir no cinema.

Pergunto a alguns, leio impressões a respeito do filme, e muitos gostaram do que viram. Minha dúvida maior é se fui eu que esperava muito, e acabei ficando muito exigente e chato, ou se o filme é ruim mesmo. Será que o passar dos anos e a amargura das desilusões fez com que eu não enxergasse aquilo tudo, aquela magia, que eu alegremente enxerguei nas três primeiras aventuras?

Realmente não sei, e pelas minhas contas, Spielberg já deixou de ser um dos “grandes” faz tempo. Abaixo, dou minha opinião por ordem de preferência, à respeito da obra do cineasta:

Os Caçadores da Arca Perdida * * * * *
Indiana Jones e o Templo da Perdição * * * * *
Encurralado * * * * *
Tubarão * * * * *
A Cor Púrpura * * * * *
A Lista de Schindler * * * * *
Império do Sol * * * * *
Contatos Imediatos de Terceiro Grau * * * * *
1941 – Uma Guerra Muito Louca * * * *
Indiana Jones e a Última Cruzada * * * *
E.T. O Extra Terrestre * * * *
O Resgate do Soldado Ryan * * * *
Minority Report – A Nova Lei * * *
Munique * * *
Prenda-me se For Capaz * * *
Jurassic Park Parque dos Dinossauros * * *
Alem da Eternidade * * *
Louca Escapada * * *
Guerra dos Mundos * * *
O Mundo Perdido Jurassic Park * *
A I Inteligência Artificial * *
O Terminal * *
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal *
Amistad *
Hook A Volta do Capitão Gancho *

10.6.08




Falsa Loira – Carlos Reichenbach

Faz muito tempo que não acesso meu próprio blog. Na verdade nem sei porque fiquei tanto tempo sem colocar minhas idéias bobas a respeito de cinema, nesta espécie de confessionário virtual. O cinema talvez seja, uma das poucas coisas que continuo amando e que me estimulam. Acho que passei um tempo meio seco, sem saber ao menos o que escrever, pois não conseguia botar minha própria mente em ordem. Mas volto com vontade, e pra variar, não para fazer críticas e sim escrever sobre minhas impressões muitas vezes imbecis, que na maioria das vezes escapam ao próprio tema proposto. Pois vamos a elas:

Este filme do Reichenbach inaugura minha nova fase no blog, não por acaso. Estava devendo umas palavras a respeito deste cineasta tão singular. E uma cena da minha vida veio na lembrança assistindo o filme no cinema, que é muito interessante. Era um menino de uns doze ou treze anos, e não via a hora de chegar sexta-feira para assistir aos filmes da Sala Especial (quem tem mais ou menos minha idade sabe do que estou falando), que eram filmes de pornochanchada feitos na boca do lixo de Sampa, algo até muito inocente, se compararmos aos dias de hoje, mas para moleques como eu ... Basta dizer que assistindo ao filme “Cangaceiras Eróticas”, minha primeira punheta deu certo, e vi pela primeira vez aquele líquido esquisito brotar de dentro de mim.

Lembrei disso porque Reichenbach sempre incorpora aquela estética “Boca do Lixo” em seus filmes – até porque ele é nascido cineasta deste universo - e isso traz a eles uma forma autoral que muito me agrada. Mesmo quando ele erra a mão, tudo fica pequeno diante dos acertos. Reichenbach se arrisca a errar em nome de um cinema autoral e verdadeiro. Ele não se rende a estéticas ditas modernas e muito menos, aos cifrões dos novos estúdios “Globais” em que se faz cinema como se fosse televisão, e da pior qualidade. Ele fala de coisas que não se mostram na TV, mas nem por isso quer ser intelectualoíde, ou mesmo difícil. Reichenbach é cinema nacional. Lembro de como adorei, e fiquei até muito surpreendido com “Dois Córregos”. O filme me pareceu uma música, ou melhor, uma sinfonia tocada em forma de cinema. Uma música suave e triste em forma de filme. Outro filme que adorei dele foi “Garotas do ABC”, espécie de primeira parte deste “Falsa Loira” que ainda vai render uma terceira parte (ainda bem) sobre garotas operárias de fábrica, que estão muito longe do universo desenhado nas novelas da TV. Existe uma forte carga de realismo nos dois filmes, mas também muito carinho pelo universo retratado na tela.

Neste seu “Falsa Loira” acompanhamos a vida de Silmara, linda loira operária de uma fábrica, e suas desventuras amorosas e familiares. Como nada é o que parece, já explícito no título, Silmara parece uma mulher forte e segura de si, por vezes até antipática, mas na verdade é uma sonhadora que batalha no dia-a-dia para sustentar a si mesma e ao pai. Com seu jeito arrogante, suas colegas de fábrica comentam que se ela não tomar cuidado pode virar uma “biscate”, e é isso o que mais ou menos acaba acontecendo depois de se envolver com um cantor de rock e em seguida com um cantor brega romântico. É como se os retratos grudados na parede desbotada do quarto ganhassem vida, e ela pudesse viver seus sonhos. Mas qual o preço a pagar por isso? A vida é muito mais dura do que realmente parece ser, e a tintura do cabelo, assim como a maquiagem no rosto, por vezes não consegue esconder as cicatrizes, as feridas. No final, o que sobra é o ponto para bater pela manhã e mais um punhado de sonhos guardados no baú cada vez maior das desilusões.

Viva Carlos Reichenbach e suas sofridas e maravilhosas mulheres. Aguardemos a terceira parte.

15.10.07


Pedrinha de Aruanda - Andrucha Waddington


Já faz um bom tempo que não escrevo um texto para o meu blog. Tempos difíceis, de mudanças, em que resolvi tirar umas férias do mundo virtual. Coisas chatas acontecendo, e eu sem vontade nenhuma de escrever qualquer coisa, com medo de soar falso, ou mesmo indiferente.Mas tudo passa, desde a mais triste amargura, ou a completa felicidade, e no final das contas a vida tem que continuar... Quando escrevo aqui os meus textos sobre cinema, acho que na verdade sempre estou escrevendo não sobre um filme, mas sobre mim. Sobre minhas sensações, uma forma de reflexão passando os olhos pelo o que mais amo desde menino: o cinema.

Talvez por isso, eu tenha escolhido este filme singelo e comovente para voltar à ativa. Não foram precisos mais do que cinco minutos para eu ficar aos prantos no cinema. Projeto ultra-pessoal de Maria Bethânia, que convidou Andrucha para filmar sua comemoração de sessenta anos de vida. Em apenas sessenta minutos, vemos o show comemorativo no famoso teatro Castro Alves e em seguida, seu retorno ao seu porto seguro que é sua casa de infância em Santo Amaro da Purificação- BA, afins de comemorar a data com sua mãe, irmãos e familiares.

Bethânia viaja o mundo inteiro a cantar e encantar nos palcos, é amada e respeitada pelo seu talento. Mesmo quem não é seu fã, é consciente da sua importância.Para outros, como eu, que crescera ouvindo sua voz, e seu fã, é muito gostoso assistir a este filme.Não se trata de uma espiada na vida íntima de uma celebridade, muito longe disso. De certa forma, é uma deixa, para podermos entender melhor sua música(e de seu irmão), sua voz, tão cheia de verdade e intensidade.

As lágrimas acima citadas, já aparecem no início do filme, quando depois de chegar em sua cidade natal, Bethânia juntamente com a mãe e irmãs, vão assistir a uma bela missa comemorativa de seu aniversário. Assim como grande parte dos baianos, Bethânia convive tranquilamente entre o candomblé, a umbanda e o catolicismo, ao ínvés do embate de religiões, a parceria distinta em forma de axé.

A cantora também passeia pelas lembranças de menina, quando ia junto com o pai para as cachoeiras da região, ou mesmo os pobres circos que sempre passavam e passam por sua cidade. Mas é na casa de sua mãe, casa de sua infância junto aos irmãos, que vemos a beleza que é uma grande família capitaniada pela sua matriarca centenária e primeira dama baiana: Dona Canô.Ali, naquele porto seguro, cheio de amor, onde estão fincadas suas raízes, que vemos de onde Bethania tira sua mágia, esbanjada nos palcos da vida. O prazer de estar ali, com os seus, é tão evidente, que ela generosamente procura compartilhar com quem é seu fã, ou de seu irmão tão ilustre quanto ela.

Entre tantas cenas trivias, acompanhamos todos à mesa de jantar, Caetano gulosamente bebendo um restinho de sopa diretamente no prato, Bethânia se fartando de comidinha caseira, enquanto conta casos triviais. Logo em seguida, eles passam para o quintal, onde começam uma cantoria de canções singelas e antigas com o acompanhamento de Dona Canô que diz com muita propriedade, que as cancôes de antigamente é que eram belas, e não complicadas como as de hoje em dia (alfinetada no filho ilustre?), enquanto Bethânia libera doses e mais doses de whisky para o diretor Andrucha relaxar e curtir a levada bahiana. No fim, a mesma sábia senhora, diz se sentir satisfeita e orgulhosa com os filhos famosos não pelo reconhecimento que obitiveram, que isso para ela não significa absolutamente nada, e sim pela união e respeito que sempre tiveram uns pelos outros.

No final da sessão, a impressão obtida foi de que uma bela e unida família é realmente a coisa mais rica que um ser-humano pode ter o privilégio de ter, e se souber aproveitar tanto amor e união, certamente se sentirá pleno. Bethânia tem plena conciencia disso, é lá no interior da Bahia, que ela busca combustível para ser a estrela que é. Sabe do tesouro que possui, e com este filme procurou mostrar tais valores dignificando a si própria, aos seus famíliares e amigos, e principalmente ao seu público agradecido e emocionado como eu. Axé, família Veloso. Axé!



1.10.07

Relação de filmes assistidos em Setembro de 2007, por ordem de preferência.


1 – Paixões Que Alucinam – Samuel Fuller (DVD) * * * * *

2 – Cidade dos Homens – Paulo Morelli * * * *

3 – O Hospedeiro – Bong Joon – ho * * * *

4 – Querô – Carlos Cortês * * * *

5 – O Pequeno Itaiano – Andrei Krauchvk * * * *

6 – Motoqueiros Selvagens – Walt Becker (DVD) * * * *

7 – Bubble – Eytan Fox * * *

8 – Ligeiramente Grávidos – Judd Apatow * * *

9 – A Comédia do Poder – Claude Chabrol * * *

10 – Encontros ao Acaso – Joey Lauren Adams * * *

11 – Um Lugar na Platéia – Daniele Thompson * * *

12 – Marock – Laila Marrakchi * * *

13- Os Amadores – José Alvarenga Junior (DVD) * * *

14 – Nunca é Tarde Para Amar – Amy Heckerling * * *

15 – Extermínio – DannyBoyle (DVD) * * *

16 – Flanders – Bruno Dumont (DVD) * * *

17 – Escola de Idiotas – Todd Phillips (DVD) * * *

18 – A Colheita do Mal – Stephen Hopkins (DVD) * *

19 – Paranóia – D. J. Caruso * *

20 – Minha Mãe Quer Que Eu Case – Michael Lehmann (DVD) * *

21 – Candy – Neil Armfield (DVD) * *

22 – Bem Vindo a São Paulo – Vários diretores * *

23 – Alpha Dog – Nick Cassavetes (DVD) * *

24 – Premonições – Mennan Yapo (DVD) *

25 – O Homem Que Desafiou o Diabo – Moacir Góes *

26 – Licença Para Casar – Ken Kwapis *

27 – A Estranha Perfeita – James Foley (DVD) *


ps. Muitos filmes vistos no mês e nenhuma atualização no blog, uma espécie de férias involuntária. Espero voltar a escrever neste mês que se inicia.

4.9.07

Relação de Filmes Assistidos em Agosto de 2007, por ordem de preferencia.





1 - Medos Privados em Lugares Públicos - Alain Resnais * * * *

2 - Santiago - João Moreira Salles * * * *

3 - Person - Marina Person * * * *

4 - Possuídos - William Friedkin * * * *

5 - Algo Como a Felicidade - Bohan Slama * * * *

6 - As Leis da Família - Daniel Burman * * * *

7 - Ela é a Poderosa - Gary Marshall * * *

8 - Sem Reserva - Scott Hicks * * *

9 - Você é Tão Bonito - Isabelle Mergault (DVD) * * *

10- Os Simpsons - David Silverman * * *

11 - Quebra de Confiança - Billy Ray * * *

12 - O Grande Chefe - Lars Von Trier * * *

13 - Harry Potter e a Ordem do Fenix - David Yates * *

14 - Transformers - Michael Bay * *

15 - Caixa Dois - Bruno Barreto (DVD) * *

16 - O Primo Basílio - Daniel Filho * *

17 - Baila Comigo - Randall Miller * *

18 - 300 - Zack Snyder (DVD) * *

19 - Número 23 - Joel Schumader (DVD) *

20 - Araguaya Conspiração do Silêncio - Ronaldo Duque (DVD) *

21 - Acredite, Um Espírito Baixou em Mim - Jorge Moreno *


* Menção desonrosa para o último colocado, como o pior filme assistido no cinema de todos os tempos.

27.8.07

Person – Marina Person


Umas das cenas mais emblemáticas deste documentário é quando Marina fala para a mãe: “Engraçado, quando meu pai era vivo, eu bem pequena, me lembro muito dele, mas não lembro de você”. Sinceridade explicita, que mostra o quanto existe da “presença da ausência” do pai em sua vida. Deve ser interessante crescer rodeada de memórias do pai amado, mas ausente. Ainda mais quando este mesmo pai é uma pessoa amada e respeitada por tanta gente.Mistura-se assim, a falta do pai e a falta de um genial cineasta, que assim como partiu prematuramente da vida da filha, partiu muito cedo do cenário cinematográfico.Um cineasta ímpar, que supostamente, teria uma carreira brilhante pela frente, pois já constava em seu currículo duas obras-primas: “O Caso dos Irmãos Neves” e “São Paulo S.A.”. Este último, para mim, o segundo melhor filme nacional de todos os tempos. Só perdendo para “Macunaíma” , de outro cineasta que também partiu muito cedo

Lembro de ter assistido este filme na Rede Cultura quando ainda era um curta-metragem, não mudou muito, só que agora vemos mais imagens de entrevistas feitas ao cineasta, e mais imagens da família, muitas dessas imagens mostram claramente o amor de pai para as filhas, imagens do sítio da família, e na praia.E assim como Marina e sua irmã sentem, percebemos a ligação familiar, sentimos a ausência do pai, e sentimos a tristeza por partida tão prematura. Tudo aquilo que poderia ter sido e não foi.

Entendo quando ela diz que só se lembra dele, quando criança. Meu pai (biológico) também “partiu” quando eu tinha cinco anos de idade, e talvez pela perda, minha memória ainda lembre de muitas cenas da minha vida com ele, inclusive, nosso último encontro.Acho que a falta da pessoa amada, faz com que nossa memória se lembre dos momentos juntos e as outras lembranças são esquecidas. Até a data de sua morte, toda lembrança da infância esta associada a ele. Engraçado isso.

Nessa sua primeira direção, Marina faz um retrato sincero e nem um pouco melodramático, a respeito do cineasta e do pai. Só ela (ou a irmã) poderiam fazer isso, e acertou em cheio. O que mais me impressionou neste filme, foi a fotografia, como na última cena em que ela e a irmã caminham num túnel de trem ao som de “Glorioso São Cristóvão” de Jorge Ben. Seu pai deve estar orgulhoso. Agora vamos ver qual vai ser seu próximo passo como cineasta. O pai, de onde estiver, deve estar dando aquela força.

24.8.07

Ela é a Poderosa – Garry Marshall

Entrei no cinema para assistir uma comédia boba, daquelas que a gente se diverte e depois esquece. Queria despovoar um pouco o peito, dos problemas cotidianos. No final da sessão, saí perturbado com o que vi, porque não assisti uma comédia e sim um drama com temas cabulosos, entre eles: agressão familiar, alcoolismo e principalmente pedofilia. Perturbado também pois com estes temas,um filme não pode ser dirigido por um diretor tão bobo quanto Garry Marshall, que não teve o mínimo senso para tratar de tais assuntos, e tentou fazer piadinhas onde não cabiam tais desatinos. O resultado é que o filme poderia ter sido um ótimo drama, mas por causa de Marshall acabou virando uma tentativa frustrada de comédia de mau gosto. Fico imaginando este filme sendo dirigido por Todd Solondz do ótimo “Felicidade”, seria um estouro.

Garry Marshall parece perdido no seu próprio filme, não sabe dar a devida importância para cenas chaves, como na cena em que Rachel (Lindsay Lohan) conversa com Simon (Dermot Mulroney) a respeito das frustrações dele e declara que é molestada pelo padrasto. Ao invés de aproveitar o drama, o diretor já parte para piadas sem graça, para tentar fazer com que o filme seja leve. Ou quando os dois conversam a respeito do mesmo assunto, e ela pergunta em que momento aquele amor puro e lindo que ela sentia - e achava ser recíproco- pelo pai, se tornou aquela coisa “suja” que na época ela não entendia direito. Fica tudo ralo, como se o diretor pedisse desculpa ao público da pipoca, de tocar em assuntos tão sérios. Não dá.

Não consigo imaginar coisa mais asquerosa do que um próprio pai (ou qualquer outro ser humano) acabar com a inocência de uma criança através de abusos sexuais. Acho que não existe um termo que expresse tamanha repulsa por tão hediondo crime. Aquilo fica guardado na alma de tal forma, que a pessoa não consegue se livrar. Sua vida fica marcada para sempre. O velho e bom Clint, retrata este mesmo problema no ótimo “Sobre Meninos e Lobos”.

Apesar da direção desastrada, o filme se segura pelo trio ótimo de atrizes, sendo que Lindsay Lohan parece fazer o papel de si mesma: uma adolescente problemática. Na época das filmagens ela chegou a quase ser demitida pela produção por seus constantes atrasos e abusos. Mas ela está ótima no filme, certamente sua melhor atuação. É interessante também ver a eterna Barbarella Jane Fonda num papel a sua altura. E Felicity Huffman arrasa como a mãe alcoólatra.

Um filme que poderia ser muito melhor do que é. Mas que se perde nas “boas intenções” de seu diretor, que mais parece uma daquelas menininhas bobocas religiosas que aparecem no filme espiando quem de fato está vivendo, entre arranhões e feridas profundas.

21.8.07


Primo Basílio – Daniel Filho


Quem acompanha meu blog deve ter percebido o quanto gosto de filmes nacionais. Minha paixão por cinema, começou pelos nacionais, ao contrário da maioria. Geralmente o meu filme predileto do ano é nacional, este ano por exemplo, o trono é de Cão Sem Dono (por enquanto). Torço pelo cine nacional. Talvez por isso os filmes de Daniel Filho (e também de Moacyr Góes) me incomodem tanto. Parecem sub produtos sem identidade, a procura de um público perdido. Se fosse compara-los à música, diria que cada vez ele atira para um lado: Zezé de Camargo com pitadas de Caetano, em outro Calipso com Marisa Monte, e por aí vai. Não tenta criar sua própria música. Quer o povão no cinema, com suas maquiagens de novelas globais.Este deve ser seu quarto longa-metragem, e novamente , saí do cinema decepcionado. Não parece uma adaptação do grande escritor Eça de Queiroz, gênio do realismo português, e sim, uma adaptação de alguma crônica medíocre esquecida na gaveta de Nelson Rodrigues com pitadas de romance espírita de Zibia Gasparetto.
Não dá nem para comparar com a minissérie exibida na Rede Globo, que já não foi tão boa. A canalhice elegante de Marcos Paulo não tem comparação com Fábio Assumpção, e Tony Ramos com Gianecchini... Tenha dó. E ainda por cima, Daniel Filho, esqueceu do personagem mais interessante do livro: O Conselheiro Acácio. O que se salva é Sabrina Spoladore com sua Leonor “Maçaneta”.

Aposto que qualquer mulher que assista ao filme, deve dar razão à mocinha vivida por Débora Falabella (tão sem graça e sem sal, que todo mundo torce pela empregada vivida por Glória Pires), entre o primo e o marido, fique com os dois. Daí, perde-se o prumo de uma história com fortes críticas sociais e morais. Parece uma novela das seis, com umas pitadas de sexo. Afinal a mulherada quer ver a bundinha do Fábio Assumpção.

Gosto muito do trabalho de ator e diretor de novelas, feito por Daniel Filho, ele devia esquecer as facilidades que tem para fazer filmes, e se concentrar no que lhe deu tanto prestigio anteriormente.

Ontem, Jorge Furtado deu uma entrevista no Roda Vida da TV Cultura e muito lhe foi perguntado por utilizar atores globais. Só que ai é que esta a diferença entre os dois diretores. Jorge Furtado consegue desvencilhar seus atores das telenovelas, já Daniel Filho usa este fator ao seu favor. Faz muita bilheteria, talvez ganhe muito dinheiro, mas é só. Talvez salve o ano com a boa bilheteria do filme, já que os outros nacionais não conseguem, mas não serve nem de longe como exemplo de cinema brasileiro, pois não tem uma forma.